Comprimidos comprimem dores


Comprimidos comprimem meus medos
Saio com gosto queimado na boca
Pego no sono escutando
Ao que me apego  
O vento lá fora uivando
E as folhas na janela batem
Quando partem os sonhos
A partir daí parto dali
Reparto saudade que faz sair
Água dos olhos e bebo
Um gole ácido de suco que
Forma o gás barulhento
Em minha boca e um babaca
Sorri o gesto gasto do gosto
Mais vermelho do que o sangue
Que tirei quando me mordi e
Inchou-me os lábios – da boca – e ouço
Um lobo uivando longe
E o vento? O vento não uiva
Assobia, sabia? E também
Acaricia a pele quando solto
Se me encara – minha cara – com carinho
Sentirá – meu hálito
Em sua fuça que me aguça
Os sentidos mais íntimos – comprimidos
Comprimem dores das mais ínfimas
Não vale um só – valeum
Não cale um dó
Comprimo meu corpo no seu
Imprimo o que sucede no copo
D´água que mata sede
Comprimidos comprimem dores
Pra acordar - atraso
Põe-me a corda no pescoço
Coço a cabeça à beça
Pra ajudar a pensar
Em como voltar – embora
Pra outro lugar que fiz ser mais
Ou menos o mesmo
Recebe-me com o azul mais colorido
Da parede que contrasta com
Seu lilás
Aliás -
A cor que lhe cai bem -
Caio na cama bem
Com o amargo saboroso do líquido
Amarelo espumando no bigode
Que não tenho
Comprimidos comprimem dores
E bodes
Chatos que amarramos
Melhor é sem tomar
Respira e não engole
Segura os ares
Comprimidos
Dormimos escutando o luar.


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